
Uma brutal delicadeza
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Charles Bukowski é frequentemente reduzido a um escritor de bares, mulheres e derrotas, um poeta da marginalidade cujo lirismo se perderia no meio da obscenidade e do niilismo. No entanto, esta visão simplista ignora a força visceral da sua poesia, a capacidade que teve de extrair beleza do quotidiano mais banal e de encontrar uma estranha ternura no caos da existência.
Se a sua poesia choca, não é apenas pelo uso de linguagem crua ou por abordar temas como sexo, álcool e desespero. Bukowski não escrevia para chocar gratuitamente – escrevia porque era a única forma honesta de capturar a vida como ela é, sem filtros nem romantizações artificiais. A sua poesia não é um grito de destruição, mas uma tentativa de encontrar alguma verdade no meio do absurdo.
Em livros como The Last Night of the Earth Poems ou Love is a Dog from Hell, vemos muito mais do que cinismo ou devassidão. Há momentos de inesperada delicadeza, reflexões sobre a solidão, o fracasso e a beleza fugaz das pequenas coisas.
Bukowski não nega a fealdade do mundo, mas também não se rende a ela – há sempre um humor irónico, uma aceitação cínica da vida e, por vezes, até otimismo, um espelho da condição humana, em toda a sua brutalidade e fragilidade.
Para quem vê apenas pornografia e niilismo, talvez falte a coragem de encarar a vida com a mesma frontalidade com que Bukowski o fez.